segunda-feira, 21 de maio de 2012

Viriato e a fábrica na Assis Ribeiro

Viriato é um daqueles “baianos” que saíram do sertão pra tentar a sorte em São Paulo, se bem que não era da Bahia e sim piauiense, mas para os patrões era sempre mais um “baiano”, apelido que o irritava no começo, mas que com o passar do tempo acabara se acostumando.
Indo para a cidade grande aos dezessete anos, trazido pelo irmão mais velho, foi se fixar numa pensão que ficava na antiga São Paulo-Rio, a atual Avenida Marechal Tito.
Seu primeiro emprego foi na Nitro-Química, mas foi mandado embora numa crise séria que assolou a empresa. Ficou uns dois meses parado até que foi trabalhar em uma das várias fábricas situadas às margens da Avenida Assis Ribeiro, não sei nem mais como era o nome dela.
Ficou lá alguns anos, acho que uns dez se tanto, sempre na mente de retornar pra terrinha. Apesar de gostar do serviço, detestava pegar aquele “Mercedão” da CMTC lotado que ia para a Praça do Correio (a única coisa boa era uma loirinha que descia uns dois pontos antes dele), enfrentar a fila na hora de bater o cartão ou ouvir chamada de atenção do encarregado. Seu consolo era a hora de comer o que tinha naquela marmita bendita.
Outra coisa que o incomodava era aquele cheiro forte de fosfato e amônia, pois trabalhava com substâncias químicas, nem me lembro mais o que que era produzido lá. Teve até de se licenciar, não sei se foi em 1975 ou 1976, só sei que foram uns quinze ou vinte dias de licença no INAMPS.
Mas aconteceu um fato que o fez voltar de vez pro Piauí: quando o Figueiredo virou presidente, havia muita greve por aí, principalmente em São Bernardo, e na fábrica em que Viriato trabalhava, lá em Ermelino Matarazzo, não foi diferente. Chegou o pessoal do sindicato, agitou a firma todinha e por fim veio a paralisação.
Viriato, coitado, sem ter nada a ver com o movimento, caiu na besteira de ficar parado ao lado do carro de som que falava pros operários aderirem à greve, quando veio a polícia (naqueles fusquinhas vermelhos e pretos) e desceu a porrada no pessoal. O infeliz acabou apanhando “legal” e ficou sem poder se sentar por uns três dias.
Como já pensava em voltar pro norte, sem falar no fato de que a mãe estava bem ruim de saúde, resolveu se mudar de São Paulo.
E o tempo passou...
Os filhos cresceram, os netos chegaram e Viriato, um médio comerciante em sua cidade natal, do nada quis rever aquele lugar agitado onde morou por alguns anos, saber se encontraria ainda algum ex-colega de fábrica, alguma ex-paquera do ônibus...
Comprou uma passagem de avião (“Dessa vez vou e chego no mesmo dia, pois da última vez que vim de lá pra cá, fiquei cuns quarto doído de tanto ficá sentado por mais de três dia”, disse ele aos filhos), fez a viagem que tanto desejou e se achegou na casa de um sobrinho na Penha.
Mas para sua surpresa, achou tudo muito diferente, pois as coisas, de 1979 pra cá, mudaram muito.
Ficou irritado quando o cobrador do ônibus riu da sua cara quando perguntou se aquele ônibus que ia pro Itaim passava pela São Paulo-Rio, ou se a parada era do lado da igreja velha de São Miguel.
“Mas agora é tudo casa e comércio grande!”, espantou-se. “Aquele lugar na Avenida São Miguel, no meu tempo, era um matagal só, ali naquela área verde na beira do riozinho não tinha uma pedreira?”.
Vixe! E quando foi ao lugar da fábrica, pensando inocentemente que ela ainda estava lá, funcionando de vento em popa, que decepção.
Fazia muitos anos que ela tinha se mudado para Goiás, e o que restou da área da antiga firma foi invadido e virou uma favela, eufemisticamente chamada de “conjunto habitacional”.
“Daqui da Assis Ribeiro até aqui, quando eu passava pela linha do trem, era verde de tanto mato, agora é só concreto e favela!”, exclamou frustrado. “Isso era uma riqueza só, quanto dinheiro rolava aqui, e agora? Agora é só pobreza e desemprego”.
E o nosso herói sentiu um aperto tão grande no coração que, sem notar que havia muitas crianças no local – muitas delas netas de alguns de seus ex-colegas de batalha diária -, deixou escorrer as lágrimas, pela tristeza ao ver que aquele seu antigo emprego, que lhe proporcionara uma pouca economia que fora usada na sua nova vida na terra natal, virou uma coisa degradada, abandonada pelas autoridades, habitada por gente que, como ele há quase cinqüenta anos, saiu do sertão tentar a vida em São Paulo mas que não teve a mesma sorte.

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(E. R. M., 22/05/12)