sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Jesus, o louco

Tu te tornaste escravo
Tu te fizeste imundo
Foste perfurado por cravos
Para a salvação do mundo.


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(E. R. M., 26/10/11)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Lamento pelo Tietê

Ai Tietê, o que fizeram com você?
Ontem eras o progresso e hoje, és o quê?
Por ti passaram cargas e pessoas
Coisas ruins e coisas boas
Num barco a se mover.

De Salesópolis, partes límpido
Mas quando chegas a Mogi, nem tanto
É iniciada toda a agressão:
Ao sair de lá, meu Deus, que espanto!
Já sofres com a poluição!

Guarulhos, ai terra que ajudaste
Com o barro de seu fundo
Para as casas de todo mundo.
Veja com que lhe pagaste:
Com o lixo mais imundo!

Itaim, São Miguel e Ermelino
Já na entrada de São Paulo se sente
Pare e veja que cruel destino
Foram de ti tão dependentes
Hoje, são só indiferentes.

Em Cangaíba, na Penha e no Tatuapé
Vê-se que nada de você melhorar
Por ti só a fumaça dos carros
Que lhe são como que escarros
Do carbono a infestar.

Só no interior voltas à vida
No caminho do rio Paraná
Águas totalmente despoluídas
E muito cheias de oxigênio e vida
Que inveja que me dá!

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(E. R. M., 05/10/09)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Cabo Basílio

São nove da noite, é hora de o Basílio sair de casa para trabalhar. Ele dá um beijo na mulher e nos dois filhos pequenos, se der tempo, vai passar na casa dos pais para pedir a bênção, coisa que para o trabalho dele é mais do que fundamental, é a razão da própria sobrevivência.
Coloca o uniforme bem guardado na mochila, passa pelo portão de casa, olha para o céu – sem estrelas, querendo chover – faz o sinal-da-cruz e vai ter de subir a ladeira para ir à avenida principal do bairro pegar o ônibus, pois o tempo correu e não vai dar para ir lá nos “velhos”.
Desconfiado, olha para os lados, vê só algumas pessoas que retornavam do trabalho e um grupinho de adolescentes sentados numa calçada, jogando conversa fora.
Entra no ônibus – vazio – senta-se na poltrona ao lado do cobrador, fica pensando em sair daquela profissão cansativa, nos filhos que deixou de ver nascer, na mulher angustiada em casa...
Sente um aperto no coração, uma raiva misturada com tristeza, mas logo isso passa, pois é justamente esse trabalho que lhe dá o sustento.
Chega quarenta minutos depois, entra no quartel e veste a farda, pega a arma e se junta ao colega de viatura para ficar de prontidão, caso aconteça alguma coisa. Lembrou-se do meliante
que matou um velhinho só por causa de duzentos contos e na vontade de meter bala na cabeça daquele vagabundo, porém teve de segurar a raiva e esperar o camburão chegar e levar o marginal para o distrito. Lembrou também do soldado Cardoso, que foi remanejado para fazer serviços de escritório, justamente por ter dado fim num traficante perigosíssimo, o Carlinhos Mata-Mil.
“Isso é justo?”, perguntava-se o bravo soldado, recém promovido a cabo, “aquele maldito quase mata o Cardoso, deixou um companheiro nosso aleijado, e ao invés do Cardoso ser promovido por fazer o grande serviço de eliminar um assassino, ele é punido!”
Todos do batalhão sabem da injustiça cometida, mas quem seria doido de reclamar?
Passou-se o turno. Até que aquela noite foi tranqüila, se comparada às outras.
Finalmente amanhece e o bravo cabo Basílio volta ao quartel, esconde bem a sua farda, que não é para a vizinhança saber disso (há muita bandidagem na quebrada onde mora), chega em
casa, e dá graças a Deus por retornar vivo. Vê que os filhos já estão acordados pois é hora de irem à escola, e vai tentar dormir, para logo mais à noite recomeçar aquela luta, sem ter um salário justo e o pior, sem ter o mínimo de reconhecimento de quem deveria valorizar essa difícil profissão.

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(E. R. M., 28/10/09)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Rotina

São cinco da manhã e o despertador toca.
Lá fora tá um friozão de rachar.
Dou uma enrolada no tempo.
Tempo? Que tempo?
A hora vai passando, a cidade levantando e os ônibus a circular.
Na cama tá bom, mas não dá pra ficar.
O banho...
Vixe, que água gelada, saiu do congelador? Esse chuveiro não tá no quente?
Que besteira, tem que estar limpo e cheiroso, que é pra dar boa impressão no trampo.
Na rua, a neblina: uma bruta cerração, mal dá pra ver a mão, e no céu, só escuridão.

Chegou o busão... Eita! Que lotação, tá cheio até demais! A essa altura, limpo ou fedido tanto faz, pois isto aqui é uma lata de sardinha, e isso porque ainda tem o metrô!
Metrô... Ai caramba! De Artur Alvim até a Sé é uma viagem interminável. Ainda tem a baldeação pro Jabaquara.
Acho que no meu próximo emprego vou querer ir trabalhar pra lá do Itaim, não ligo se for em Mogi ou mesmo Itaquá, até porque de manhã, do centro pra lá, os ônibus vão bem vazios, apesar de que teria de levantar bem mais cedo, pois transporte praqueles lados às cinco, cinco e meia da madruga, só de quando em quando.
Chegando às oito em ponto, vejo o meu patrão de “ótimo” humor, cobrando o serviço de ontem.
E o dia passa numa velocidade tão rápida quanto tartaruga.
É o jeito: pra quem não quiser viver de esmola, tem que ser de dia no trampo e de noite na escola! E eu que não estudei direito pra prova de Matemática hoje...
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(E. R. M., 31/01/11)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Telegerúndio

O cliente vai estar resmungando
A musiquinha vai estar enchendo
A operadora vai estar enrolando
O cliente vai estar se aborrecendo.
A musiquinha vai estar tocando
E o cliente vai estar enlouquecendo
A operadora vai estar falando
E o cliente não vai estar entendendo.
O cliente vai estar se irritando
A operadora vai estar escrevendo
O cliente vai estar reclamando
Mas é a empresa que vai estar perdendo.
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(22 de julho de 2009)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

No dia em que eu morrer

No dia em que eu morrer

não quero choro nem bajulação

só porque eu vim a falecer

não quero lágrima e lamentação.


No dia em que eu me for

não quero soluços compungidos

não quero nenhum favor

e nem sentimentos fingidos.


Já me basta a ira divina

o juízo particular e a sentença

por minha vida tão cretina

eis que será uma hora tensa.


Não quero os que, na minha vida

viviam somente a me ofender

mas que depois da minha partida

“sofredores” querem parecer.


Não quero sequer um velório

peguem meus restos e os enterrem

pois eu nunca fui fã de falatório

acabem logo com esse réquiem!

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(26 de outubro de 2011)