sábado, 16 de março de 2013

Como vai, morena?

Como vai morena? Como está?
Eu, prezada morena da boca pequena, aqui vou indo, nunca mais nós nos falamos.
Nunca mais nós nos vimos.
Nunca mais nos encontramos.
A última vez, me lembro bem, você sorriu lindamente, mas para dizer que tudo estava acabado, que você não mais me amava.
No começo, morena, não dei importância, mas depois...
Depois...
Ora, depois...
Quanta angústia, quantas mágoas guardadas.
Ainda assim, nunca deixamos de nos cumprimentar, você com meu substituto, e eu com aquela que foi sua substituta e minha companheira por tanto tempo - a solidão.
Você, morena de sorriso sereno, causou um estrago muito grande em mim, mas tudo bem, o tempo é o melhor remédio para as feridas.
Gostaria de saber como está e como vai.
Estará bonita como na época em que nos conhecemos? Ou estará estragada pelos anos, pelo ofício de mãe, pela rotina de trabalhadora da periferia, pelo desgaste de dona de casa?
Há quanto tempo que nosso caso aconteceu e você ainda faz parte da minha história, mesmo que já tenha me esquecido.
Saudações, morena.

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(E. R. M., 16/03/13)

Eu não sou fariseu


Eu não sou fariseu.
Não meço minha religiosidade pelas exterioridades da liturgia.
Eu não sou fariseu.
Minha espiritualidade não tem cheiro de naftalina.
Eu não sou fariseu.
Não julgo os outros sob a minha visão do que é religião.
A Igreja afunda?
Afunda sim, mas só não sucumbe de vez porque o Senhor Jesus prometeu estar com Ela sempre.
Eu não sou fariseu.
Não quero olhar para o cisco nos olhos do papa, se há um dormente nos meus.
Eu não sou fariseu.
Pecador sim, infelizmente, mas nunca fariseu.

(E. R. M., 16/03/13)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Vamos deixar esta fossa?

Vem, levante-se daí, saia desse baixo astral.
Vem, erga a cabeça, abra o coração para as coisas boas.
O pior já passou, a poeira está baixando, o tempo está passando.
Vamos ver o céu azul que nos cobre, ainda que o dia esteja num calor infernal.
Para você, menina, deixe a tristeza de canto, acabe com todo o pranto, busque ser feliz.
Ainda que demore.
Ainda que ninguém mais creia em você.
Ainda que você não creia mais em você mesma.
Deixe a fossa! Deixe a deprê.
Acabou? Teve fim? E daí? Bora subir o nível, bora correr, grite, cante, pule, deixe que os outros pensem que você enlouqueceu.
O pior já passou.
Vamos deixar esta fossa? Nem que seja para mandar um “foda-se” bem falado, bem pronunciado, para essa fase lazarenta que nos perturba, ou para aqueles que querem o nosso fracasso!
Vamos deixar esta fossa?

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E. R. M., 24/11/12

domingo, 14 de outubro de 2012

Quero meu Palmeiras de volta!

Foi-se o tempo em que víamos surgir "o Alviverde imponente"!
Onde está aquele time de verde que botava medo nos adversários?
Onde está a aquele time que, de tanto jogar um futebol bonito, ganhador de títulos, era chamado de "Academia"?
Onde está o velho Palestra Itália, o time dos italianinhos, que se tornou Palmeiras, clube que abrange não só os ítalo-descendentes mas também a torcedores de outras raças, como negros, asiáticos, mineiros, gaúchos, nordestinos e este que escreve estas linhas, um paulista de sangue cearense?
Cadê o verde-esmeralda da camisa? Foi trocado por um horroroso verde-limão marca texto!
Cadê o Verdão? Caiu pra segunda divisão!
É de lascar ver o Corinthians, nosso eterno freguês, viver uma situação melhor do que a nossa!
É de doer ver o São Paulo, o mesmo time que fugiu do Pacaembu na arrancada heróica de 1942, com medo de sofrer uma goleada impiedosa do recém-renomeado Palmeiras, figurar entre os principais do futebol nacional!
É de matar um coração alviverde ver o Santos, que um dia ganhou de todo mundo menos da gente, conquistar títulos.
Onde está aquele time verde e branco que aterrorizava os adversários só de ser visto em campo?
Onde estão os craques?
Onde estão os dirigentes vanguardistas de outrora? Preferiam o bem-estar do time em detrimento do financeiro!
Só sei de uma coisa: quero o meu Palmeiras de volta!
Na primeira ou na segunda divisão, meu coração sempre cantará o Verdão!
Quero meu Palmeiras de volta!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Hipócritas

Detesto gente hipócrita.

De que adianta se escandalizar com um pai que dá uma palmada no filho, se acaba achando engraçado quando esse mesmo pai dá um pouco de álcool para o pequeno beber?

De que adianta o homem ser super consciente, ter raiva de outro homem que bate na mulher, querer aplicar a Lei Maria da Penha no dito cujo, mas se ele pega tudo quanto é puta na rua, transa com com as raparigas e passa doença venérea pra esposa? Depois é a pobre da mulher que tem de se expor, quando vai fazer tratamento pra combater a moléstia sexual contraída do maridão.

De que adianta o cidadão ter uma penca de afilhados de batismo, se ele vive falando mal de padre e da Igreja? Se não gosta, por que aceita ser padrinho?

De que adianta aquela moça ficar fazendo fofoca pra irmã sobre o cunhado, se a cabeça tá cheia de chifre?

Ora, por que será que tanta gente se contradiz?

É porque não tem nada na cabeça, a não ser merda.

De que adianta ficar pagando de pai exemplar, querendo dar bons exemplos e censurando os fuxiqueiros, se é o primeiro a falar que fulana casada deu pro vizinho, que o rapaz da rua de baixo é baitola ou que fulano de tal é ladrão?

Aos hipócritas só digo uma coisa: vão à... ponte que caiu!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Viriato e a fábrica na Assis Ribeiro

Viriato é um daqueles “baianos” que saíram do sertão pra tentar a sorte em São Paulo, se bem que não era da Bahia e sim piauiense, mas para os patrões era sempre mais um “baiano”, apelido que o irritava no começo, mas que com o passar do tempo acabara se acostumando.
Indo para a cidade grande aos dezessete anos, trazido pelo irmão mais velho, foi se fixar numa pensão que ficava na antiga São Paulo-Rio, a atual Avenida Marechal Tito.
Seu primeiro emprego foi na Nitro-Química, mas foi mandado embora numa crise séria que assolou a empresa. Ficou uns dois meses parado até que foi trabalhar em uma das várias fábricas situadas às margens da Avenida Assis Ribeiro, não sei nem mais como era o nome dela.
Ficou lá alguns anos, acho que uns dez se tanto, sempre na mente de retornar pra terrinha. Apesar de gostar do serviço, detestava pegar aquele “Mercedão” da CMTC lotado que ia para a Praça do Correio (a única coisa boa era uma loirinha que descia uns dois pontos antes dele), enfrentar a fila na hora de bater o cartão ou ouvir chamada de atenção do encarregado. Seu consolo era a hora de comer o que tinha naquela marmita bendita.
Outra coisa que o incomodava era aquele cheiro forte de fosfato e amônia, pois trabalhava com substâncias químicas, nem me lembro mais o que que era produzido lá. Teve até de se licenciar, não sei se foi em 1975 ou 1976, só sei que foram uns quinze ou vinte dias de licença no INAMPS.
Mas aconteceu um fato que o fez voltar de vez pro Piauí: quando o Figueiredo virou presidente, havia muita greve por aí, principalmente em São Bernardo, e na fábrica em que Viriato trabalhava, lá em Ermelino Matarazzo, não foi diferente. Chegou o pessoal do sindicato, agitou a firma todinha e por fim veio a paralisação.
Viriato, coitado, sem ter nada a ver com o movimento, caiu na besteira de ficar parado ao lado do carro de som que falava pros operários aderirem à greve, quando veio a polícia (naqueles fusquinhas vermelhos e pretos) e desceu a porrada no pessoal. O infeliz acabou apanhando “legal” e ficou sem poder se sentar por uns três dias.
Como já pensava em voltar pro norte, sem falar no fato de que a mãe estava bem ruim de saúde, resolveu se mudar de São Paulo.
E o tempo passou...
Os filhos cresceram, os netos chegaram e Viriato, um médio comerciante em sua cidade natal, do nada quis rever aquele lugar agitado onde morou por alguns anos, saber se encontraria ainda algum ex-colega de fábrica, alguma ex-paquera do ônibus...
Comprou uma passagem de avião (“Dessa vez vou e chego no mesmo dia, pois da última vez que vim de lá pra cá, fiquei cuns quarto doído de tanto ficá sentado por mais de três dia”, disse ele aos filhos), fez a viagem que tanto desejou e se achegou na casa de um sobrinho na Penha.
Mas para sua surpresa, achou tudo muito diferente, pois as coisas, de 1979 pra cá, mudaram muito.
Ficou irritado quando o cobrador do ônibus riu da sua cara quando perguntou se aquele ônibus que ia pro Itaim passava pela São Paulo-Rio, ou se a parada era do lado da igreja velha de São Miguel.
“Mas agora é tudo casa e comércio grande!”, espantou-se. “Aquele lugar na Avenida São Miguel, no meu tempo, era um matagal só, ali naquela área verde na beira do riozinho não tinha uma pedreira?”.
Vixe! E quando foi ao lugar da fábrica, pensando inocentemente que ela ainda estava lá, funcionando de vento em popa, que decepção.
Fazia muitos anos que ela tinha se mudado para Goiás, e o que restou da área da antiga firma foi invadido e virou uma favela, eufemisticamente chamada de “conjunto habitacional”.
“Daqui da Assis Ribeiro até aqui, quando eu passava pela linha do trem, era verde de tanto mato, agora é só concreto e favela!”, exclamou frustrado. “Isso era uma riqueza só, quanto dinheiro rolava aqui, e agora? Agora é só pobreza e desemprego”.
E o nosso herói sentiu um aperto tão grande no coração que, sem notar que havia muitas crianças no local – muitas delas netas de alguns de seus ex-colegas de batalha diária -, deixou escorrer as lágrimas, pela tristeza ao ver que aquele seu antigo emprego, que lhe proporcionara uma pouca economia que fora usada na sua nova vida na terra natal, virou uma coisa degradada, abandonada pelas autoridades, habitada por gente que, como ele há quase cinqüenta anos, saiu do sertão tentar a vida em São Paulo mas que não teve a mesma sorte.

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(E. R. M., 22/05/12)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Nas catacumbas do Oriente

É Semana Santa, quinta-feira, véspera da Paixão.
As ruas estão vazias, não há nenhum sinal de vida circulando.
Os maometanos estão confortáveis em suas casas, na mesma medida em que os cristãos estão escondidos.
Escondidos para poderem celebrar os ritos da Paixão e da Ressurreição do Senhor Jesus.
Escondidos por não seguirem ao impostor de Meca.
Escondidos por serem cristãos.
E é nessa semana onde a Igreja relembra o martírio do Filho de Deus na cruz que os cristãos do Oriente se apegam mais ainda à esperança da ressurreição.
As bombas, as armas, as agressões, os atentados que os muçulmanos impõem, não são capazes de fazer esses anônimos deixarem de seguir a Jesus Cristo.
Nem as prisões arbitrárias, nem a violência e as violações, nem as igrejas incendiadas, nem as meninas cristãs escravizadas sexualmente, nada faz esses valentes discípulos do Mestre deixá-lo.

Os cristãos olham, desolados, sua casa de oração destruída, enquanto os servos de Alá contemplam a tristeza cristã com sarcasmo.
Quem foi que disse que a era das perseguições havia terminado? Quanto engano!
É noite de Quinta-feira Santa, quando Cristo se fez servo e serviu aos discípulos. Noite de vigília, de oração, onde nem o mais implacável perseguidor deixa de ser lembrado nas preces dos cristãos, para que se converta.
É noite de Quinta-feira Santa, e no dia da instituição da Eucaristia, os cristãos escondidos recebem a Cristo Eucarístico, dentro de porões, casas miseráveis ou nas ruínas de uma igreja destruída.
Resumindo: eles estão nas modernas catacumbas.

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(E. R. M., 05/04/12)